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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

CAPITULO XIV
Continuava Jesus com seus sermões, alheios a toda a ortodoxia, aumentando o ódio e o desejo de o perder, por parte de seus inimigos. Ele desafiava-os afinal e denunciava-os perante o mundo por todas as suas maldades, falsidades e prevaricações, pondo Deus como Juiz e testemunho de suas acusações.

Irmãos meus, o limite que fixei para este trabalho não me obrigará ao silêncio, se algum de vós tiver o desejo de maiores esclarecimentos ou de uma nova confirmação dos fatos que vos tenho referido. Em segundo lugar, o curso dos acontecimentos até o final deste livro me dará motivos para numerosas digressões com respeito ao assunto que nele se desenvolve. Nós limparemos o caminho e aplanaremos o terreno; semearemos por Deus. Edifica-remos a casa de nossos filhos na luz e acumularemos riquezas para eles, derramando tesouros divinos sobre as riquezas humanas. Revelemo-nos tanto pela simplicidade de nosso estilo, como pelo ardor de nosso amor. Expliquemos nossa defesa diante dos homens que nos acusam, nossa força diante dos que nos negam, nossa afetuosa piedade ante os que deformam nossa personalidade. Digamos-lhes a todos, infelizes ou culpados, ignorantes ou malvados:

“Aproximai-vos, amigos meus, dar-vos-ei a felicidade de crer em Deus nosso Pai, princípio e adorável fim da criação, aliança e movimento das invisíveis harmonias e incomensuráveis grandezas do Universo.
“Demonstrar-vos-ei a superioridade gradual e a afinidade dos espíritos entre eles, a diversidade dos elementos e a superioridade absoluta da direção dos globos planetários, dos fosforescentes astros errantes, das reconstituições luminosas, do decrescimento e da regeneração dos mundos. Ensinar-vos-ei a vida espiritual na matéria e fora da matéria, contar-vos-ei minhas dúvidas, minhas esperanças, minhas faltas, minha gloriosa coroação, o martírio de minha alma, o triunfo de meu espírito, as lutas de minha natureza carnal com as aspirações do meu pensamento, a tendência humana ardendo em meu coração completamente cheio de desejos de uma pureza imortal. Descrever-vos-ei a Jesus como o mais adiantado dos Messias vindos à Terra e farei resplandecer a casa de Deus, livre de toda a superstição filha das criaturas; conduzir-vos-ei ao sentimento do dever e vos convencerei da felicidade que espera aos fortes, humildes e religiosos observadores das leis de Deus.
“Ao ouvir minha voz sereis consolados, vós que chorais, e caminhai sob minha terna proteção, ó vós que gemeis no isolamento e na ingratidão, no abandono e na injustiça, no esgotamento das forças físicas e na amarga sensação da lembrança e do remor­so! Eu quero minar toda a crença no maravilhoso; fazendo‑me conhecer tal qual sou e afirmando a graça como um efeito da justiça divina”.

A graça é o benefício da força; a força resulta do progresso do espírito e todos os espíritos se elevam por meio das provas da vida carnal, quando compreendem seus ensinamentos. Jesus, desde a felicidade espiritual para a qual o conduziram os opróbrios humanos, teve que preparar seus direitos a uma glória cada vez mais luminosa, e assim sucederá a todos os que chegam ao desenvolvimento das forças por intermédio da vontade.
Neste capítulo, irmãos meus, teremos que expor a doutrina pura de Jesus, fazendo notar as manchas impressas nesta doutrina pelos sucessores de Jesus e pelo próprio Jesus em sua última estada em Jerusalém.
Rodeado em Betânia de seus amigos mais queridos, Jesus não lhes abriu bastante o caminho do porvir mediante um amplo desenvolvimento de sua doutrina e em Jerusalém cometeu o erro de não se proclamar o fundador de uma nova religião. Jesus tinha que repudiar toda a coesão com o povo judeu e morrer afirmando sua fé sobre outros princípios, que não eram os da lei mosaica.
As palavras de sentido ambíguo, as palavras desprovidas de elevação, porque derivavam da vida exata e regular de povos laboriosos, os discursos obscuros, a sublime teoria da igualdade, da fraternidade, da liberdade individual, que parecia até então urdida com pouca habilidade, e a organização viciosa e incorrigível da sociedade humana, tudo tinha que desaparecer e iluminar-se em meio dos últimos preparativos da separação. Ai de mim! Deus foi testemunha das dores de minha alma, dos arrependimentos de meu espírito; mas ele consolou a minha alma com sua força e reservou para meu espírito o encargo de um perfeito cumprimento. — Regozijo-me das trevas ao sair das deslumbradoras luzes! — Quero desafiar o desmentido brutal depois de haver deixado os eflúvios do amor independente e generoso, entrego-me à humanidade terrestre para despedaçar suas cadeias e mostrar-lhe seu criador!
Coloquemos debaixo de nossos olhos as semelhanças que existem entre a época das provas humilhantes de Jesus e os tempos de espantosas e convulsivas torturas do estado social. A desconfiança do povo de Jerusalém apoiava-se nas provas que se lhe davam a respeito de minhas contradições. Minha firmeza em rechaçar toda a participação nos fatos milagrosos que se me haviam atribuído, influiu ainda mais para aumentar a desconfiança do povo. — Por que, repetia o povo, permitiu ele que o apresentassem como um curador inspirado, quando afirma agora não haver curado ninguém de um modo sobrenatural?
José e Andréia atribuíam-se a honra, por troça, de serem os filhos de Deus; Maria, minha mãe, parecia oprimida pela vergonha e o desgosto; as mulheres que me acompanhavam tremiam, escudando-me com seus corpos, e meus novos amigos interpunham-se entre a multidão irreverente e meus discípulos de Galiléia. Tais foram os preliminares de uma justiça que se fez forte com o grande nome de Deus, para ir contra o seu Messias e contra os interesses de seu povo, para abater o defensor do povo.
Hoje, irmãos meus, a doutrina de Jesus, mal compreendida no princípio, tanto pela natural fraqueza de Jesus, como por efeito de seus mais zelosos defensores, A DOUTRINA DE JESUS, REPITO, É MAL CONHECIDA ATÉ O PONTO DE QUE JESUS É UM DEUS PARA ALGUNS, UM LOUCO PARA OUTROS E UM MITO PARA OS DEMAIS. Os homens que se julgam capazes de dirigir a Humanidade discutem o poder soberano ou não falam dele jamais; os de espírito mais independente se inutilizam nas orgias, ou dão demonstrações de si com ações miseráveis; os menos irreligiosos sustentam todas as instituições em opróbrios ao Deus de amor e de paz; e a NEGAÇÃO DE MINHA PRESENÇA AQUI DESCANSA NA PRETENDIDA IMPOSSIBILIDADE DAS RELAÇÕES ESPIRITUAIS. Neste dédalo de negras heresias, de desprezíveis defecções, de absurdos erros, domina, como nos dias da revolta do povo de Jerusalém contra Jesus, o louco orgulho das paixões inconscientes e o desafio de delinqüentes concupiscências. Jesus, preparado para a luta e profundamente convencido de sua missão divina fazia depender demasiado sua coragem, da coragem dos que ele amava, e a idéia democrática bebida por ele em um sentimento religioso exaltado, porém sensato, não se levantava o suficiente acima das alegrias do coração. A ingratidão, o abandono, a calúnia encheram a alma de Jesus de uma altaneira compaixão e selaram seus lábios quando justamente houvera sido da maior habilidade o anunciar a religião universal a todos os povos da Terra.1
Neste momento Jesus olha para a Humanidade, presa toda ela, parte ao ateísmo e parte à superstição, e por mais que ele se sinta tão maltratado pelos céticos quanto pelos relaxados e pelos hipócritas, permanece impassível no poder da idéia, na força da ação, as quais não estão já sujeitas às fraquezas da natureza humana. O amor torna-se uma força de entidade espiritual, e se do ensinamento prático de sua vida de abnegação, Jesus não pôde alcançar as honras populares com que contava, nem por isso resulta menor o doce apoio dos pobres e dos humildes, o juiz severo dos prevaricadores e dos conquistadores.

1 Apresenta-se novamente aqui a designação de religião universal, ou, como eu sempre escrevo, Religião Laica Universal, livre de todas as estreitezas de círculo, escola ou seita. Compraz-me fazer ressaltar esta insistência do Mestre. — Nota do Sr. Rebaudi.

Ditemos as principais passagens das últimas predicações de Jesus e tiraremos em conseqüência que as falsas avaliações provêm sobretudo das omissões e das referências apócrifas.
Quando ele quis dar testemunho de seu prestígio de filho de Deus em Jerusalém, pronunciou estas palavras:

“Eu sou aquele que meu pai enviou para dar-vos sua lei; quem quiser me seguir verá Deus. Eu caminho pela estrada da verdade e a luz resplandece em mim.
“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e encontrareis. Isto quer dizer que Deus é uma ciência e que responde aos que trabalham.
“Estudai a origem dos males e as dos benefícios e reconhecereis a justiça de Deus.
“Afastai-vos do orgulho e dos tumultos da terra para interrogar a Deus e ouvir o que vos responderá.
“Eu sou o filho de Deus, porém esta honra foi merecida por mim e vos digo: Todos os homens de boa-vontade podem chegar a ser filhos de Deus.
“Não me pergunteis aonde vou nem de onde venho.
“Somente meu Pai conhece meu porvir, e meu passado permanece oculto para mim, enquanto o pó que envolve meu espírito se mistura com o pó dos mortos.
“Destruí em vós o homem velho e deixai falar o homem novo. Enquanto existir em vós algo do homem velho, as paixões serão mais fortes e o vento soprará sobre vossos projetos.
“Humilhai-vos diante de Deus e não procureis o domínio entre os homens.
“Arremessai para longe de vós as cousas inúteis e cumpri a lei do amor.
“Diminuí vossos gastos para socorrer os pobres; o que tudo tenha dado aos pobres será rico na presença de Deus.
“Levantai longe daqui vossa vivenda; posto que, vos digo, o homem é viajante sobre a terra. Sua família espera-o; sua família o seguirá em outro lugar e terá ainda que trabalhar para reparar as perdas presentes.
“Não enfraqueçais vossa fé, com investigações estéreis,2 com uma passagem mais estéril ainda, mas praticai os mandamentos da lei de Deus e a luz chegará a vós, pois que a luz é um olhar de Deus.
“Todo aquele que cumpra a lei e deseje a luz, conquistará a ciência, não essa ciência banal que resolve todas as cousas deste mundo, senão outra ciência que tudo explica.
“Felizes os que compreendem estas palavras.
“Felizes os homens de boa-vontade, o reino de meu Pai lhes pertencerá.”

Com estes sermões, alheios a toda a ortodoxia, os doutores da lei ameaçaram fechar-me as portas do templo.
Se o povo me houvesse parecido desejoso de conhecer a definição da ciência e da luz, das quais falava, eu teria desafiado a proibição e teria feito valer os direitos de um professor religioso que não atacava nenhum dos dogmas reconhecidos, porém as más disposições do povo me surpreenderam e resolvi retirar-me para Betânia.
Durante o período transcorrido entre a primeira defecção do povo e os atos atrozes de que o mesmo povo foi autor, Jesus não estabeleceu limites às suas expressões e o mesmo sentimento de sua elevação inspirava-lhe ímpetos de furor e profecias de desastres. Ele fustigava a seu gosto aos que chamava hipócritas e perversos, e apontava com antecipação, quase como para oprimi-los depois com o terror, os frágeis no amor, os indecisos na fé, os desconfiados, os ingratos, a toda essa massa de ignorantes e vis que haviam de oprimir seu corpo, semear a indecisão em sua alma e enfraquecer, quase, sua confiança em Deus.

“Sois sepulcros caiados, a ferrugem e os vermes corroem seu interior.

2 Refere-se sem dúvida a essas investigações destinadas somente a satisfazer a vaidade ou filhas de uma estéril curiosidade. — Nota do Sr. Rebaudi.

“Possuís roupas, os pobres encontram-se desnudos, e vós rides quando as crianças choram de frio e de fome.
“Andais anunciando em altas vozes vossas obras, entretanto no interior de vossas casas escondem-se a orgia e o delito.
“Denunciais ao mundo a mulher adúltera e enganais a Deus com as aparências de castidade, enquanto vosso espírito encontra-se turbado por desejos impuros e ambições desonestas.
“Condenais o vício dos pobres, porém guardais silêncio a respeito dos escandalosos excessos dos imperadores e do vergonhoso servilismo dos cortesãos.
“Chamais a vós mesmos os sacerdotes de Deus, os privilegiados do Senhor, e amontoais riquezas sobre riquezas e incensais aos déspostas e conquistadores.
“Eu sou o Messias, filho de Deus, e vos anuncio que este templo será destruído, que não ficará pedra sobre pedra de vossos edifícios; uma nova Jerusalém se levantará sobre as ruínas da antiga; vossos descendentes procurarão o lugar onde se exercitava vosso poder e os fastos de vosso orgulho se desvanecerão como uma sombra.
“Quer me decreteis honras, quer me condeneis à morte, meu nome sobreviverá aos vossos e a lei que trago prevalecerá sobre a que vós predicais, sem cumpri-la.
“Hipócritas, que tendes a boca cheia de mel e o coração cheio de ira e de ódio. Déspostas, assassinos sem fé, vil manada de escravos encarcerados durante a noite, covil infecto de animais venenosos, desprezível caterva de gente embrutecida e depravada, sois o mundo que está por terminar e eu proclamo um mundo novo, uma terra prometida, a verdade, a justiça, o amor. Intérpretes de um Deus vingativo, implacáveis provedores da morte, a ciência da imortalidade dir-vos-á a todos que Deus é bom e que a vida humana tem que ser respeitada.”
No meio de outros excessos de linguagem, Jesus acusava os pobres de seguir uma miséria aviltante, sem combatê-la com o trabalho e com as economias do trabalho.

“Desejais o descanso e passais o tempo no ócio e na embriaguez. Detestais vossos patrões, porém invejais sua fortuna, e se vos encontrásseis em seu lugar, procederíeis como eles, porque não possuís a fé que proporciona a coragem no meio da pobreza e a modéstia no meio da opulência.
“Queixai-vos do orgulho e da crueldade dos ricos, e eu digo-vos que vós tendes a alma encouraçada, o espírito prevenido, próprio das naturezas baixas e ciumentas.
“Os que entre vós estão compreendidos no nada das riquezas e na lista dos pobres, serão os primeiros no reino de meu pai; mas, repito, embora muitas vezes o tenha dito: Muitos serão os chamados, porém poucos os escolhidos.
“Opróbrio para os comerciantes de má-fé; o roubo, sob qualquer nome que se disfarce, é uma falta ante as prescrições mais elementares da lei divina; somente a restituição e a caridade podem descarregar a consciência do depositário infiel, do mercador desleal, do falsário, do homem ambicioso e injusto.
“Pecadores de todas as condições, homens de todos os tempos, a moral encerra-se nestas palavras: Fazei aos outros o que quereríeis que fizessem a vós.
“Para trás, traficantes das cousas santas no templo do Senhor!
“A casa de meu Pai é uma casa de oração e vós a converteis em covil de ladrões.
“Retirai-vos, retirai-vos, vos digo, deste lugar de paz e de retiro.
“Os sacrifícios de carne são ímpios; a prece é um perfume da alma, um brado do coração, um arrependimento do espírito, que os tumultos do mundo não poderão aproximarse-lhes sem afastá-lo de Deus.
“Ai de vós e de todos os que desviarem de seu verdadeiro objetivo as obras do Criador! Ai de vós e de todos os que converterem a religião em um meio para adquirir fortuna temporal!”

A voz de Jesus tomava então uma entonação vibrante e seus gestos tornavam-se ameaçadores. Em nenhuma época de sua vida de apóstolo encontrou tanta amargura em sua alma e tanta indignação em seu espírito, ao revelar as vergonhas da Humanidade, armando-se contra ela com as prerrogativas que lhe davam a sua missão e a ciência divina.

“Sois fracos e ferozes. À ignorância da juventude ajuntais a perversidade do orgulhoso, do avaro, do ambicioso, do dissoluto, do assassino.
“Combateis pela glória alheia! — Que é essa glória?
“Uma espantosa demência, um monstruoso assassinato.
“Adorais um Deus! — Quem é esse Deus?
“Uma imagem formada por espíritos em delírio, um ídolo freqüentemente furioso, sempre fácil de tranqüilizá-lo, acessível a todas as queixas, disposto a todas as concessões. Um ídolo adornado com vossos próprios vícios.
“Os altares de vosso Deus estão inundados de sangue e vós lhe dedicais até sacrifícios humanos.
“Ali! — Causai-me horror! — Empenho-me por adiantar o momento de minha morte, sabendo bem que ela será dolorosa, pois somente depois dela eu me verei livre de vosso vínculo, rota uma fraternidade que me é odiosa, e entrarei na glória de meu pai.
“Poreis em desnudez meu corpo para alegrar vossos olhares, submetereis à sorte minhas vestes para que possa dizer-se que nada do que é meu deixastes a meus servos; meus servos desaparecerão e morrerei abandonado pelos homens, pois que está dito: o Messias morrerá ignominiosamente; o céu e a terra guardarão silêncio.
“Não penseis que eu temo a morte; mas assusta-me vosso porvir.
“Não penseis que eu abrigo as intenções de livrar-me de vossos ódios, mas compreendei e recordai isto: Eu voltarei depois de minha morte. Os que me reconheçam serão perdoados. Compete ao Filho de Deus levantar o pecador e abençoá-lo, facilitar-lhe o arrependimento e proteger os fracos.”

Irmãos meus, a palavra de Jesus torna-se sentenciosa e profética à medida que ele se vai aproximando do termo de sua vida terrestre, ao mesmo tempo que suas afirmações se vêem livres prontamente do temor pelas perseguições e pelas preferências de seu espírito em favor dos deserdados. Anunciando ele mesmo a ressurreição de seu espírito e prometendo sua participação nos progressos da família humana, ditava sua sentença de morte. Seus amigos, desde logo demasiado tímidos e descoroçoados pela confusão dos espíritos, sentiram-se, sob todos os pontos, impotentes diante desta terrível imputação.
“Declarou-se Deus. Todos ouviram. Tem que morrer.”
Determinemos a confusão dos espíritos e façamos distinção entre os partidários e os defensores de Jesus.
Os partidários de Jesus amavam o homem e teriam querido salvá-lo do perigo inerente às prerrogativas de Messias. Os defensores de Jesus deduziam a prova de sua superioridade das demonstrações do apóstolo; mas esta superioridade cada um a explicava a seu modo e a lógica era sacrificada com freqüência, ante o espírito de partido e de disputas.
Uns ignoravam a doutrina que havia proporcionado a Jesus suas mais formosas definições da grandeza de Deus e o tomavam por sábio, cuja vida havia transcorrido no estudo das leis orgânicas e das dependências destas leis. Admiravam o ardente professor de moralidade tão pura, mas rechaçavam tudo quanto lhes parecia sair do círculo dos descobrimentos permitidos à inteligência do homem. O destino humano, depois da morte corporal, era para eles um mistério que ninguém podia penetrar. Atacando este mistério, eu me convertia em derrogador, a seus olhos; sustentando minhas convicções, volvia-me um fanático por um erro concebido no paroxismo da vaidade. Outros conheciam as fontes de minha ciência, porém não reconheciam a esta ciência o poder de estabelecer demonstrações tão absolutas e classificavam de orgulhosa pretensão minhas alianças de espírito com espíritos mais elevados.
Os primeiros tinham a franqueza de suas opiniões, os últimos misturavam à consagração de um fato inegável as reticências de espíritos acanhados e ciumentos. Os defensores reais de Jesus eram ao mesmo tempo seus partidários mais instruídos. Já nos referimos a José de Arimatéia, Nicodemus, Marcos e Pedro. Nos últimos dias que permaneci em Betânia, Pedro e José receberam de mim instruções definitivas a respeito do que tinham que fazer depois de minha morte. Demonstrar, cada vez mais, minha mensagem divina a estes dois depositários de minha última vontade, era minha constante preocupação.

“Que jamais desmereçam no cumprimento de sua missão, dizia eu, mas que estejam convencidos de minha ressurreição espiritual, e esta doutrina, no seu princípio, fraca como eles, se consolidará. — Oh sim! — O porvir terá a colheita de tudo o que eu ajuntei e pus em evidência. O porvir verá generosos espíritos combater o que eu tenho combatido e pôr em prática o que ensino, e eu me converterei em seu apoio, como os que vieram na minha frente o fizeram para comigo, a fim de dar perseverança à ação, a calma e a força no meio dos vendavais.
“Oh, sim! Sairei vitorioso da morte e revelarei perante o mundo as provas de minha imortalidade.”

Meus discípulos de Galiléia (excetuando a Pedro) me pareciam incapazes para seguir minhas prescrições. Sua inaptidão tornava-se ainda maior pelos deploráveis ciúmes, e sempre me havia custado muito trabalho uma aparência de união entre eles. João e o irmão preocupavam-se mais que tudo, em procurar os meios de elevar-me ante a posteridade e prediziam que eu ressuscitaria, corporalmente,3 aos três dias depois de minha morte. Mateus e Tomé me estimavam, me veneravam com uma espécie de adoração; porém não acreditavam em minha lucidez a respeito do que se relacionava com o porvir. Felipe dizia que era impossível realizar alguma fundação com elementos conservadores tão limitados. Judas e Simão, irmão de Pedro, Alfeu e Lebeu, permaneciam indecisos sobre muitos pontos da doutrina. Judas buscava mais que nunca, poucos dias antes de nossa saída, algum testemunho de afeto. Ai de mim! Olvidei-o no meio de tantas preocupações. Meus amigos de Galiléia eram superiores, em méritos espirituais, a todos os meus discípulos de Galiléia.
A casa de Simão havia-se enchido, devido a mim, de consolos e esperanças; porém aí, como nas outras partes, os espíritos careciam de homogeneidade na fé. Todos os que encontrei nesta casa foram-me fiéis e serviram-me com dedicação. Maria morreu pouco tempo depois de mim. Maria e Simão encontraram forças nas manifestações espirituais, que eu lhes havia prometido.
Irmãos meus, permaneçamos compenetrados da graça divina, porém procuremos não ver nela um desvio da Natureza. A demonstração dos destinos humanos pode ser feita somente pelos delegados de Deus a espíritos preparados para receber esta demonstração; e todos os espíritos terão que percorrer o caminho que leva às honras da revelação, feito pelos delegados de Deus. A idéia manifestada com a palavra milagre não existe em nossa pátria, onde as leis do desenvolvimento e as da desorganização são reconhecidas como invioláveis e onde a manutenção do equilíbrio universal se define por meio de um estado permanente das propriedades de cada elemento, as harmonias de cada atmosfera, dos princípios conservadores e das causas mórbidas inerentes à matéria, das afini-

3 Na realidade, desde que se fala em ressurreição, não pode entender-se senão a volta à vida material, posto que, não se falando de morte espiritual, também não há motivo para falar de ressurreição espiritual. O que deve compreender-se, no meu entender, é que Jesus quis referir-se ao desaparecimento e reaparecimento de sua personalidade eclipsada por um momento devido à desencarnação. Para os homens Jesus tinha morrido e seu reaparecimento não podia ser considerado senão como uma ressurreição pelos hebreus. Este é o fato. — Nota do Sr. Rebaudi.

dades e das repulsões próprias do espírito, dos caminhos abertos à inteligência coletiva e às investigações individuais, para conservar, preservar, reparar, curar e vencer a destruição, mediante a conquista da espiritualidade pura.
A doutrina de Jesus explicava o fasto da imaginação para descrever as alegrias da espiritualidade pura; mas no ensinamento da adoração humana por meio da divindade e no ensinamento dos deveres fraternos, a doutrina de Jesus, positiva em seus princípios, desafiava os equívocos mediante a aplicação de seus preceitos. Ela tirava das perfeições de Deus a causa motriz da perfectibilidade do espírito humano. Reunia os atributos divinos para fazer com eles um código de moral universal. Proclamava a igualdade, explicando as origens e os destinos. Dizia que o amor das criaturas, entre elas, é o único meio para atrair sobre as humanidades o amor do Criador.

“Em vossa adoração a um Deus justo, dizia Jesus a seus discípulos, sede alheios aos desejos contrários à justiça.
“Em vossa adoração ao Autor de todas as causas, rechaçai as profanações e as crueldades.
“Em vossa adoração a Deus forte, poderoso, imutável, aliviai vossa consciência, dilatai vossa alma, olvidai as necessidades da vida corporal.
“Em vossa adoração a um Deus de amor e de misericórdia, lançai-vos nos braços de um ardoroso amor filial, de um amor grato, e perdoai aos que vos tenham ofendido.
“Reuni os fiéis em meu nome e repeti minhas palavras sem tirar-lhes nem acrescentar-lhes nada.
“Ide à casa do pobre para consolá-lo e abençoá-lo.
“Não vos intrometais nas causas temporais a não ser para reunir novamente o que tiver sido desunido e para facilitar a concórdia entre os homens.
“Sede sóbrios e discretos, porém não vos imponhais sacrifícios inúteis.
“Desprezai as honras do mundo e não sejais escravos de preconceitos. Habitai com os inimigos de Deus para edificá-los com vossa conduta e nunca maldigais de alguém.
“Tomai-me como exemplo e segui-me, do contrário não sereis meus discípulos. Sou pobre, permanecei pobres, sou perseguido, sofrei as perseguições, e espalhai entre todos os homens a esperança, a paz, a luz do espírito.”

Irmãos meus, o amor de Deus converte a alma humana em criadora, depois de havê-la subjugado sob as provas de um desenvolvimento dolorosamente laborioso. A inteligência humana criadora é a aproximação do espírito criado e do espírito criador, é a perfectibilidade orgânica, o desenvolvimento das faculdades, tal como o pensamento estático havia ousado sonhá-lo; é a quimera de um vasto ideal convertida em uma poesia sincera da alma, dilatação devoradora do espírito.
Oh, Deus meu! Quanta distância entre este pedestal levantado por teu amor às gerações ascendentes e os abismos formigando de insensatos mal-humorados, de inimigos desapiedados, de heróis monstruosos. Quanta distância entre o esplendoroso vestíbulo de tua morada de glórias eternas e estas trevas de espanto, onde teu nome, pronunciado com hipócrita doçura, é acolhido pelas risadas estúpidas de uma multidão que exala nuvens de pó e rios de sangue.
Dentro de pouco voltarei. Concluo aqui meu décimo quarto capítulo.

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Desejo a todos, muita paz, luz, amor
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Darci Dickel
CAPÍTULO XIII



Manifesta Jesus o perfeito direito que lhe assiste para ser julgado pelo que ele verdadeiramente disse e não permite à médium a menor troca de suas palavras e tampouco a quem quer que deva intervir na publicação delas. Ocupa-se depois da legislação judaica pura-mente religiosa e da civil. Refere-se ao inexorável da primeira e das intrigas dos fariseus para perder a seus adversários. A Jesus muitas vezes eles haviam armado laços e ele increpava-os duramente. Em suas pregações, à medida que a ira e a perseguição dos sacerdotes ia precipitando a data de sua condenação, ele demonstrava maior brio em sua propaganda e mais rigor nos ataques contra o Clero e os magnatas, que abusavam torpemente de suas posições, contra as teorias democráticas do Mestre, que queria a igualdade e a fraternidade dos homens.

Irmãos meus, revelando as causas de minha condenação e os juízos errôneos de meus atos, desejo que minhas palavras não sejam defendidas, a não ser por mim somente; é preciso, pois, deixá-las tal como as exponho.
Honremo-nos com o nosso respeito para as ordens de Deus, não procuremos nem facilitar a admiração dos homens nem diminuir a maliciosa pretensão de alguns dentre eles. Que unicamente o escritor seja o responsável. À depositária de minha narração, não lhe permito nenhuma adição ou correção. A todos os que formulem suas dúvidas e à vontade séria de se iluminarem responderei eu mesmo.
Sede os discípulos dóceis do enviado de Deus. Suavizai sua repentina aparição em meio de um mundo frívolo e cético atribuindo sua aliança com os espíritos cuja luz vós outros haveis já demonstrado; mas não altereis nada em seu modo de apresentar os acontecimentos. A vida de Jesus deve ser precedida de comentários humanos, para explicar o pensamento que presidiu a esta obra divina, e deve ser separada de toda a comunicação que não seja do mesmo espírito.
Passemos ao exame dos motivos de minha condenação.
“Eu tinha facilitado as sedições populares, fazendo cair sobre os sacerdotes suspeitas de inteligência com os pagãos.”
Sim, eu me havia associado a uma multidão de revolucionários, cujo objetivo comum, idêntico ao meu, não excluía intenções culpáveis e perigosos excessos.
Porém, já o invasor se cansava nas repressões das sublevações, como na sanção dos juízos do tribunal sagrado. O direito político se estabelece sobre o direito humano; os cargos, os empregos, fizeram-se acessíveis a todas as capacidades, e as facções se enfraqueceram pouco a pouco sob um governo mais cuidadoso do bem geral. Tão-somente o elemento religioso começou a semear a desordem nos espíritos. O caráter eminentemente dominante do Grande Sacerdote criava numerosos inimigos ao poder sacerdotal; mas estes inimigos, divididos pela espionagem, empregavam suas forças em revoltas parciais, que atraíam sobre si sangrentas represálias, resultando inúteis para a obra definitiva. Por prudência, Hanan foi deposto, porém continuou exercendo sua influência durante o pontificado de Caifás, seu genro. Nas discussões dos artigos da lei, o princípio religioso, sobre o qual descansava a mesma lei, era inexpugnável. Os chefes de escola encontravam numerosos opositores, cujo objetivo era o de conduzi-los para a negação e os fariseus sobressaíam neste infame ofício. O Sinedrim, tribunal sagrado, julgava os delitos de lesa-majestade divina. Todas as infrações referentes à lei civil ficavam dentro do círculo de atribuições dos tribunais ordinários. As penalidades ressentiam-se da diferença estabelecida entre os delitos religiosos e os delitos previstos pela constituição do Estado. O fanatismo tinha que demonstrar-se mais desapiedado que o princípio da ordem social. Uma lei decretada pelo poder romano castigava com a morte ao assassino e ao bandido armados; porém sucedia freqüentemente que circunstâncias habilmente aproveitadas pela, defesa desviassem da cabeça do culpado a terrível expiação.
Ante os príncipes dos sacerdotes e dos fariseus toda a sublevação ostensiva contra as prescrições do culto mosaico tinha por conseqüência a morte. A lei era precisa, inexorável. Nas causas maiores, aos sessenta príncipes dos sacerdotes, fariseus e doutores da lei que compunham o Sinedrim, agregavam-se alguns membros suplementares.
Chamava-se príncipes aos sacerdotes nobres de nascimento ou reconhecida capacidade exercida de longa data (enobrecimento).
O farisaísmo era uma seita piedosa e respeitável em aparência, hipócrita e depravada na realidade. Os doutores da lei representavam a casta mais erudita e mais inteligente da nação judaica. Dividiam entre si as funções difíceis do apostolado e da magistratura sagrada. No templo eles exerciam a verdadeira autoridade, porquanto os sacerdotes não eram mais que servidores autômatos, mais propensos às honras mundanas e aos gozos materiais, que desejosos das prerrogativas da ciência e da virtude. Nas sinagogas os doutores da lei faziam preceder suas conferências de algumas incitações, para a curiosidade, que se referiam a tais ou quais personalidades. Na vida privada davam conselhos e na vida pública davam demonstrações de suas crenças com eloqüentes discursos. As funções da magistratura sagrada os submetiam aos deveres de juízes, de acusadores1 e de defensores. O prestígio de seu talento estabelecia convicções2 e a marcha dos processos dependia unicamente deles.
Irmãos meus, as participações de Jesus nas sublevações populares, que tiveram lugar quando tinha vinte e quatro anos de idade, foram uma conseqüência de sua educação e das idéias religiosas que ele se empenhava em erigir como uma doutrina.
Jesus era revolucionário porque dizia: “Os poderes da Terra são mantidos pela ignorância das massas”.
Mas Jesus havia bebido o princípio democrático que o fazia agir no princípio divino das alianças celestes; mas o democrático

1 Equivalente aos nossos promotores públicos.
2 Quer dizer que o talento deles formava a convicção do público a respeito da culpabilidade ou inocência dos acusados. — Nota do Sr. Rebaudi

. Jesus queria a igualdade e a fraternidade entre os homens por-que os homens são iguais diante de Deus, que é seu pai; mas o democrático Jesus professava o desprezo pelas honras mundanas, porque essa honras paralisam as manifestações que adquirem as honras espirituais, porque apoiava o elevado destino do espírito sobre os deveres que incumbem a este espírito, em sua marcha ascendente.
O revolucionário Jesus combatia a opressão, porque a opressão é contrária à lei de Deus; porém, ordenava o perdão, porque o perdão encontra-se na lei de Deus. O revolucionário Jesus amava os pobres, porque os pobres eram para ele irmãos desgraçados, compadecia-se dos ricos, porque os ricos eram para ele irmãos extraviados.
O democrático Jesus dizia:

“Os poderosos deste mundo serão os parias do outro mundo”.

E dizia também:

“Amai-vos uns aos outros e meu pai vos amará. Na casa de meu pai não há pobres nem ricos, nem patrões, nem servidores, senão espíritos, cuja ciência aperfeiçoará sua própria virtude”.

Aplicai, irmãos meus, as palavras de Jesus e sede revolucionários como eu; é uma cousa heróica o sê-lo.
Povos e governos de povos, deponde as armas e refleti final-mente no objetivo da existência temporal.
Infelizes envilecidos, tenebrosos negadores da Providência divina, levantai-vos e adorai a Deus! Ricos, honrai a pobreza, e vós outros, pobres, não invejeis as riquezas.
O poder e a grandeza humana fazem decair o espírito não penetrado do poder divino e das grandezas espirituais. A adversidade eleva o espírito que reconhece a justiça de Deus. O espírito não pode adquirir a força senão por meio das provas da vida corporal; o espírito forte torna-se em pouco tempo digno da glória de Deus.
Expliquemos, irmãos meus, o caráter e o valor do delito do desvio do culto divino imputado a Jesus. Desde tempo imemorial, o culto divino é uma mistura de supersticiosas devoções e interessadas mentiras. Desde tempo imemorial, têm existido homens que têm demonstrado em nome de Deus que a razão deve submeter-se a todos os erros grosseiros do sentido intelectual, para a edificação de tal ou qual doutrina religiosa. Desde tempo imemorial, a força suprime o direito, a noite devora a luz, e a ajuda de Deus é invocada pelos assassinos e pelas trevas.
Deus é imutável. Novas sementes enchem o vácuo; a luz se reproduz no meio das trevas; e a vida gerada pela morte, a luz vitoriosa sobre a noite, depositam sobre a superfície de um mundo os vivos do Senhor, os lutadores das verdades eternas. Isto deve suceder, isto sucede e chama-se progresso.
Todas as humanidades atravessam pelas fases da infância no meio de horizontes nublados, todas as humanidades distanciam-se do objetivo e se detêm indecisas; porém, então, luzes repentinas iluminam o caminho, o caminho volta a ser empreendido e a verdade prepara seu reino definitivo, sob os olhares e o apoio de Deus.
Jesus devia a preceptores ilustres seus primeiros estudos sérios e tinha amadurecido seus meios de aperfeiçoamento, com profundas meditações. Jesus devia a inspirações secretas, honradas por demonstrações palpáveis, a revelação de sua missão divina, e ajoelhava-se sobre o limite da pátria celeste para escutar as ordens de Deus; com o pensamento, voava por cima dos séculos de ignorância para facilitar aos séculos seguintes a luz e a felicidade. O espírito, chegado ao desenvolvimento moral e intelectual, permanece fiel às convicções adquiridas por ele mesmo, até que a ciência de Deus lhe dê a imortalidade da força e o impulso do fanatismo para sacrificar o presente ao porvir, para preparar o porvir com o preço das mais amargas desilusões humanas. O espírito desenvolvido em um mundo carnal designa um Messias e este Messias não pode fugir da perseguição senão desertando da causa a cujo amparo se tenha dedicado. Desprezando a morte corporal, o espírito adiantado no caminho da perfectibilidade, fraqueja também diante dos assaltos dos seres inferiores, e sua confiança enganada, seu amor mal correspondido pesam-lhe como remorsos.
Permaneçamos, irmãos meus, na crença absoluta das forças individuais, desenvolvidas com o exercício da vontade,3 Permaneçamos na afirmação da justiça de Deus, seja que ela se estabeleça com provas ou com benefícios, porém afirmemos sobretudo com energia, a liberdade dada ao homem, quer quando ele luta contra as pressões desorganizadoras da alma, quer quando ele tenha que combater principalmente contra as manifestações tumultuosas da ignorância e do ódio. O espírito adiantado desliga-se das dependências humanas e alimenta-se das forças de Deus, à medida que são melhor compreendidos o nada da matéria e a extensão das pos-sessões espirituais.
Justiça de Deus, glória a ti, tu és explicável e tudo explicas. Justiça de Deus, honra aos que te dedicam sua coragem e sua resignação; eles marcham pela via afortunada do engrandecimento da dignidade do espírito.
Jesus, irmãos meus, tinha consciência de seus atos e a força de sua sincera natureza, quando acusava os sacerdotes e os fariseus.
Compenetrado do respeito pelo culto divino, porém contrariado em seu respeito pela avidez e arrogância dos ministros desse culto, pela hipocrisia oficial de uma seita religiosa com grande poder, Jesusprocurou na mesma origem do culto e na inexata ponderação dos deveres humanos, as verdadeiras causas da dissolução moral e das vergonhas intelectuais que ele ia notando. Nesta investigação Jesus viu-se ajudado por trabalhos anteriores aos seus e por ligações novas ou renovadas na vasta associação dos espíritos e dos mundos. Jesus absteve-se a princípio de investigar os mistérios da religião mosaica, depois deixou-se arrastar por opiniões que correspondiam ao seu sentido moral; logo depois, circunstâncias cada vez mais favoráveis à sua missão abriram-lhe o caminho entre os escombros que ruíam e as pedras brutas do porvir.
Jesus compreendeu que era necessário conservar alguns vestígios do passado para não encontrar obstáculos à sua tarefa de construtor; mas a miúdo faltava-lhe a paciência e dizia:

“Não se podem fazer roupas novas com panos velhos”.

Jesus adorava a seu pai em espírito e em verdade, e quando o povo ignorante pedia-lhe explicações, respondia:

“Deus não tem senão desprezo para os oferecimentos e para as práticas exteriores, quando não as acompanham a virtude e a força dimanada da ciência.
“Deus proíbe o orar somente com os lábios, e os que entram em uma sinagoga com o coração cheio de ódio e com as mãos sujas pela rapina e o sangue, merecem o castigo de Deus.
“Permanecei humildes e pacientes sob o peso da vida mortal. Amai-vos uns aos outros, libertai vossa alma dos laços vergonhosos, vossos espíritos das ambições injustas, e tereis servido a Deus e Deus vos abençoará neste mundo e no mundo que para vós outros sucederá a este.
“Deus quer vossos corações por templo; adorai a Deus no templo por ele escolhido.
“As funções do culto põem em evidência, as mais das vezes, a incapacidade, a vaidade e a hipocrisia.
“A adoração interna conduz sempre o espírito pelo caminho da simplicidade, da doçura, da sabedoria.
“Vós podeis orar juntos, porém não façais pompa com vossas orações e não mistureis as pompas mundanas com as cousas de Deus”.4

4 A prece não deve ser motivo de exibicionismo, pois isto significaria um contra-senso. Que motivos de elogios ou que brilho pode comunicar-nos o fato da manifestação implícita de nossa fraqueza e de nosso desejo de proteção, ao dirigirmo-nos humildemente, em súplica, perante o Altíssimo? — Porém é que até da humildade, quer dizer, da virtude que implica o reconhecimento da nossa

Irmãos meus, Jesus explicava Deus com a elevada inteligência que de Deus lhe vinha, porém bem sabia que não podia preservar-se dos ódios e vinganças dos que ele acusava por seu orgulho e picardias, dos que estavam compreendidos em suas demonstrações.
Jesus definia o amor como o grande motor da religião universal, e ensinava a igualdade dos espíritos, a comunidade de seus interesses perante Deus, o desenvolvimento, o emprego das faculdades pensantes. Combatia portanto os poderes fundados sobre o desprezo das leis de Deus e a imobilidade do espírito decretada por estes poderes.
As religiões baseadas sobre a divindade de Jesus, do mesmo modo que todas as doutrinas alheias a essas religiões, estão impregnadas de defeituosas apreciações a respeito de Deus. Para que uma religião seja a fonte definitiva da felicidade humana, é necessário que ela seja a conseqüência da própria razão, essência de Deus. Façamo-nos novamente fortes com a enunciação do elemento constitutivo da razão divina e da razão humana em sua pureza.
A razão divina é a preponderância do amor na obra da criação. A razão humana, firmemente estabelecida, é a emulação do amor que o Criador espalha sobre a criação. A justiça divina é uma conseqüência do amor divino; os efeitos desta justiça demonstram o infalível raciocínio de um poderoso trabalho de concepção infinita.
Que os mundos formados para determinadas categorias de espíritos, recebam outros mais desmaterializados que o que comporte


inferioridade, se faz um motivo de exibicionismo. Isto é prova evidente do assombroso atraso em que ainda vegetam muitos espíritos que se prejudicam olhando para trás em lugar de fazê-lo para a frente e para cima. Quanto ao de aumentar eficácia à oração por meio de pompas mundanas, como sucede com o aparatoso culto exterior do catolicismo, é mais ridículo ainda, porque, sendo o orar uma ação exclusivamente espiritual, nada tem que ver com tudo o que não seja obra do espírito, como o incenso, o tanger de campainhas, todo o ouropel amontoado ao redor dos que oram ou deviam fazê-lo, e as complicadas manifestações do ritual católico. Se fizéssemos tanta farsa ao redor de nossos pais carnais ou de nossos superiores, ao pedir-lhes algo, positivamente nos expulsariam sem consideração alguma. Além disto não deve esquecer-se que a oração não consiste precisamente em pedir e sempre pedir, não: A oração é a elevação do nosso sentimento para Deus. — Nota do Sr. Rebaudi.

a generalidade; que as moradas humanas abriguem, de tempos em tempos, luminosas inteligências; que as provas carnais representem uma cadeia contínua de intermitências de repouso e de espantosas catástofres, que importa, desde o momento que a justiça de Deus é a que resolve e é o amor que dita sua justiça! Que importa, desde o momento que os Messias expressam o amor de Deus para todas as inferioridades e que os sofrimentos humanos representam atos de reparação para a justiça de Deus.
Jesus, já o disse, fustigava os poderes estabelecidos pelo esboroar das consciências e pelo abuso da força e encontrava em si o mais ardente patriotismo da alma, para abater todos os despotismos e para compadecer-se de todas as misérias da Humanidade. Mas os inimigos de Jesus afirmavam que ele havia atacado o dogma da unidade de Deus, ao dizer-se filho de Deus e que havia enfraquecido a fé religiosa favorecendo a revolta. Aqui, irmãos meus, vamos resumir os principais ensinamentos de Jesus; mas não volveremos sobre o caráter de filho de Deus, tão mal interpretado em todos os tempos e que já expliquei suficientemente.
Quando Jesus deixou Jerusalém pela primeira vez e foi a países distantes, adquiriu a certeza de que as religiões não dividiam esses povos, porquanto o amor das artes e das riquezas obtinha a preferência respectivamente a qualquer outra aplicação do espírito. Quando Jesus abandonou Jerusalém pela primeira vez, viu-se livre e feliz no meio dos povos livres e cheios de fantasia. Ele começou proporcionando abundantes consolos e manifestando seu caráter afável e expansivo. De sua doutrina, expôs somente o que era necessário para estabelecer o amor como base do equilíbrio humano, porém não determinou o amor como uma obrigação do completo sacrifício, desde que sabia muito bem que, para homens extenuados pelos gozos mundanos, devia fazer concordar a habitual expansão de seus espíritos com as primeiras exigências da razão do espírito.
Jesus tornava indispensável o amor pela necessidade que tinham os homens de ampararem-se uns aos outros. Acaso o amor não protegia os interesses do pobre, assim como defendia o rico contra os insensatos desejos de igualdade material?
Jesus definia a esperança como um remédio para todos os males. Dirigia os olhares do espírito para a felicidade do porvir, com palavras de misericórdia e de alento. Ele fazia da morte uma luminosa transformação. Pelo espaço de dois anos Jesus evitou as críticas do mundo frívolo e a desconfiança da gente séria. De bom grado escutava-se ao doce profeta, que prometia a abundância aos que proporcionassem alívio aos pobres, que concedia o perdão de Deus aos que perdoassem aos seus inimigos, que anunciava a paz e a felicidade para todos os homens de boa-vontade, em nome de Deus, Pai deles. Seguiam-no nos lugares públicos e na plataforma dos edifícios, ao atraente revelador dos destinos humanos, que explicava a igualdade primitiva e a beatífica imortalidade. As jovens levavam-lhe seus filhos e ele os abençoava; os enfermos o mandavam buscar e ele se aproximava deles; os pobres tomavam-no como arrimo e os ricos se detinham para ouvi-lo pregar a fraternidade e o desinteresse. Oferecia-se sempre generosa hospitalidade ao dispensador da graça de Deus e, tanto nas famílias como no meio do povo, Jesus convertia-se no pai, no amigo, no conselheiro e na alegria dos pagãos, aos quais jamais falou do castigo e da cólera divina.
Ele guardou a lembrança consoladora desse tempo no meio da agitação e da tristeza que, mais tarde, o oprimiram. Mas Jesus não podia chamar a atenção do espírito humano sobre as pessoas que o rodearam nesse tempo, e isto porque o espírito humano não teria nenhum fruto que colher do conhecimento das intimidades de Jesus, quando essas intimidades não se encontram ligadas a acontecimentos conhecidos ou que mereçam sê-lo. Conheceu a João, pela primeira vez, na idade de trinta anos e na de trinta e três anos e alguns meses, morreu. João dissipou as irresoluções de Jesus a respeito de sua missão como filho de Deus, e ele prometeu a João que se su-jeitaria a algumas práticas externas, se sobrevivesse ao apóstolo, o que mereceu do apóstolo as seguintes palavras:

“Eu sou o precursor, tu és o Messias.
“Esperava-te para continuares a obra e torná-la imortal”.
“Agradeçamos a Deus que nos reuniu, e fundemos o porvir com o preço das tribulações e das torturas da morte. As tribulações, a morte, serão nossos títulos para a glória imensa, para o poderio eterno”.
João morreu assassinado pelos que ele havia apontado ao desprezo do povo, um ano depois da sua entrevista com Jesus.
Este quis então tomar a direção dos discípulos de João e juntá-los aos seus; porém teria que vencer a obstinação de espíritos sem capacidade e sem grandeza moral pelo que se viu obrigado a renunciar a isso. Jesus o havia dito: seus discípulos de Galiléia somente mais tarde o compreenderam, e sua conformidade verdadeira na fé não teve lugar senão depois da morte daquele que abandonaram, quase todos, no caminho da dor. Mantidos na gratidão pelo respeito que professavam para com a memória de seu mestre, os discípulos de João seguiram-me a distância e deram-me provas de afeto. Dois anos consecutivos trasladei-me às margens do Jordão para observar o jejum e dar a costumada solenidade às práticas de João. Das duas vezes fui acompanhado pelos discípulos de João, cujo número não havia diminuído. Eram quinze e o mais velho presidia as reuniões da doutrina, com o recolhimento a que o havia acostumado seu preceptor de prudência e saber. Estes homens sóbrios e severos davam à virtude as lúgubres aparências de vinganças celestes; depositários da vontade de João, tinham que sofrer pelas contradições que resultavam entre eles e nós. Eles queriam a exterioridade da contrição, o rigor da forma, a evidência do culto, nós a humildade na penitência, a prece do coração, a liberdade dos exercícios religiosos, a abstenção completa de pompas nos sacrifícios e método nos ensinamentos.
De nossos hábitos, de nossa existência alegre com relação à deles, os discípulos de João não tiravam induções tristes para o porvir e continuaram chamando sempre Messias a quem seu mestre havia designado com o nome de Messias.
Repito, os discípulos de João demonstraram-se muito superiores aos discípulos de Jesus. Deixando de lado o fanatismo que afastava o pecador da esperança em Deus e o exagero censurável das práticas, eles possuíam todas as qualidades do espírito que determinam a inviolabilidade da consciência. Os discípulos de João não me acompanharam durante os dias nefastos que precederam ao meu suplício, porquanto encontravam-se dispersos e errantes. Um decreto lançado contra eles, quando me encontrava em Betânia, tinha-os expulsado da Judéia. A perseguição religiosa foi sempre em progressão desde essa época, ela anunciava a ruína de Jerusalém e a decadência do povo hebreu.
Minhas instruções, desde a separação de João até minha partida para Cafarnaum, provam os meus conhecimentos da ciência divina, posto que dirigia-me a homens capazes de me compreenderem. Estes homens, desgraçadamente, eram tímidos aliados ou déspotas depravados, e os primeiros não me podiam amparar senão com a ajuda do povo. Apoiar-me no povo teria sido, tenho disso, hoje, a convicção, criar-me segurança, durante o tempo necessário, para a fundação de minha glória humana como Messias e revelador da lei universal.
Cometi um grande erro ao afastar-me de Jerusalém, e deste erro dimanam as superstições que têm mantido desviados os espíritos do propósito latente de todas as humanidades; a adoração de um só Deus, o amor fraterno, o progresso na adoração e no amor.
Dos ensinamentos de Jesus nessa época, deduzimos que o pensamento que neles dominava, destruía, desde cima até a base, os preceitos da antiga lei para substituí-los pelos da nova. Pronunciaram-se então estas palavras:

“A luz vem de Deus e eu sou a luz. Deus pôs em mim todas as esperanças, no sentido de que a verdade se faça evidente para vós.
“Felizes os que compreendem a verdade. O homem não seria homem, se não tivesse aprendido alguma cousa antes de nascer. Fazei-vos sábios para descobrir o que precedeu à vossa atual existência. O futuro vos será revelado pelo conhecimento que adquirirdes de vosso passado.
“Crede na purificação por meio das provas e jamais duvideis da misericórdia divina; porém guardai bem isto: A purificação opera-se lentamente e a misericórdia divina não poderia contrariar a lei da organização e da desorganização.
“Segui minha lei. Ela diz: Orai em segredo, perdoai a vossos inimigos e ajudai a vossos irmãos.
“Repetir-vos-ei sempre: O que abandona o pobre será por sua vez abandonado. O que mata será morto, o que amaldiçoa será amaldiçoado. Isto é um segredo divino que explica-se, não em uma vida mas em muitas vidas.
“Defendei-vos das superstições inferiores da infância dos povos, que assimilam a Deus com os membros da humanidade,5 e adorai a vosso pai, sem pedir-lhe que altere cousa alguma de seus desígnios.
“Os homens de boa-vontade levantarão um templo a Deus e o reinado de Deus se estabelecerá sobre a terra. Digo-vos: Muitos de entre vós verão o reino de Deus; mas compreendei bem minhas palavras; estas palavras são de todo o tempo, porque o espírito é imortal; a vida sucede à morte; a luz dissipa as trevas; o santo nome de Deus será bendito por toda a Terra.
“Afastai-vos dos falsos profetas. Reconhecê-los-eis facilmente. Eles anunciam sempre a fome, a peste e todos os flagelos. Invocam a cólera de Deus sobre os que tenham prevaricado e sobre os homens que investigam os desígnios deles, para dar a conhecer sua velhacaria. Afirmam que Deus protege seu poder e afetam grandes aparências de virtude, enquanto que seu coração encontra-se sobrecarregado de ódios. Agora vos digo: Deus não tem senão amor para suas criaturas, ele castiga-as sem pesar para conduzi-las ao arrependimento. Todos colhem em um tempo o que tenham semeado em outro tempo. Todos devem cuidar da sementeira, para que o bom grão não seja abafado pela




5 O texto (em italiano) diz: “assimilano Dio agli aderenti delle umanitá”; e tradu-zido literalmente não teria significado. O que lhe dou na tradução (em espanhol) é o da idéia que quer manifestar e que se refere aos deuses antropomórficos, com alusão evidente aqui ao próprio Jesus, em quem se quis ver a Deus convertido em um membro da Humanidade.­ — Nota do Sr. Rebaudi.

erva má. Segui a lei de amor e Deus falará a vossos espíritos e vos mandará mensageiros de seu amor. A graça de Deus é obra de Justiça.
“Felizes os que desejam a graça e saibam merecê-la. A verdade lhes será revelada e eles a espalharão para confundir os maus e os hipócritas, para instruir os ignorantes, para consolar os pobres e os pecadores, para facilitar aos justos os meios de fundarem o reino de Deus sobre a Terra.
“A verdade se recomenda por si mesma, desde que fala em nome da razão, da igualdade, da fraternidade e da imortalidade, pois que demonstra a felicidade futura, apoiando suas demonstrações na justiça, no amor, na sabedoria do Criador; pois que ela separa a justiça de Deus das ferozes vinganças, o amor de Deus das fraquezas das predileções, a sabedoria de Deus das indecisões e inconstâncias da vontade”.

Irmãos meus, estas instruções, todas elas cheias da chama divina, estas expansões de um espírito penetrado das grandezas espirituais tinham de resultar bastante incompreensíveis para muitos homens, mas estes homens compreendiam a oposição que eu lhes fazia e a todos os abusos de autoridade e amavam-me por isso; mas estes homens diziam que eu era o Messias anunciado pelos profetas e criam em mim. Se eu houvesse consentido em deixar-me rodear e defender e, não obstante meus triunfos populares, houvesse permanecido senhor de mim mesmo, minha morte, inevitável resultado da volubilidade das opiniões humanas, teria sido a consagração da aliança dos mundos e dos espíritos.
Nos preparativos de minha alma para sofrer esta morte, travaram-se grandes lutas dentro de mim mesmo. — Devia eu revelar publicamente minha ciência ou deixar a meus fiéis o encargo de divulgá-la? — O silêncio que guardei acusa-me de uma culpa, não muito grave, qual a de haver abandonado Jerusalém quando era necessário permanecer ali.
Eu devia ter gravado meu aspecto de Messias sobre o porvir, enchendo de espanto a meus verdugos, com palavras que eles teriam sido impotentes para corromper. Eles, do mesmo modo que os propagadores de minha origem celeste, não teriam podido demolir um conjunto de princípios por mim desligados dos erros das primeiras apreciações, e das contradições estabele-cidas dentro do propósito da segurança necessária.
Dediquemos, irmãos meus, uma atenção séria às faltas de Jesus. Elas dão a medida das concepções do espírito espiritualizado, porém circunscrito pelas enfermidades humanas; põem em evidência a justiça eterna que concede ao missionário a livre direção de sua tarefa; provam a cegueira da clarividência, a fraqueza da força, a decadência da superioridade, pelo efeito de duas naturezas opostas no mesmo ser. Jesus arrastou o peso destas duas naturezas, e se alguma vez sucumbiu sob a pressão de correntes opostas, sempre se levantou depois da queda, fortalecido pelo pressentimento de sua próxima glória.
Em Cafarnaum e seus arredores, tantas e tantas vezes percorridos por mim, meus ensinamentos se haviam colocado ao nível das pessoas às quais me dirigia. Comecei, a princípio, com máximas isoladas e com conselhos aplicáveis a todas as situações morais e a todos os sofrimentos físicos. Ninguém em Galiléia se ocupava da medicina propriamente dita, porém todos os homens que queriam estar no apogeu para com o povo, deviam estabelecer sua superioridade sobre o mesmo com demonstrações ostensivas de alguma ciência, e a arte de curar era o que excitava, no mais alto grau, a emoção popular.
A Natureza oferecia-me em abundância, nesses campos, plantas preciosas, e guiado por alguns estudos anteriores, obtive êxitos, que mais tarde se tornaram como milagres e exorcismos. Com meus discípulos empreendi excursões nos arredores de Cafarnaum. Visitei sinagogas, estudei a capacidade intelectual do povo e fiz uso, para fazer-me estimar, de uma doçura familiar, que me impelia tanto para as festas quanto para a procura de enfermos e de gente abandonada.
Minhas parábolas se inspiravam nas próprias paixões de meus ouvintes, por meio de um estilo imaginativo e breves comparações. Minhas descrições dos tormentos do inferno, meus êxtases pelas belezas do céu, os exaltavam e acreditavam-me então quando lhes dizia:
“Os que me amam me seguirão e eu os conduzirei à verdadeira vida.
“Eu sou o bom pastor. Quando o bom pastor se apercebe que uma ovelha se extraviou, deixa por um momento as outras ovelhas para procurar a que se perdeu e a conduzir ao aprisco.
“Pedi, e dar-se-vos-á. Batei, e abrir-se-vos-á. Eu sou o distribuidor das esperanças e das consolações”.

Eu misturava com freqüência o que se encontra, entre linhas, na Doutrina pura com os dogmas ortodoxos; porém nas instruções mais íntimas, livrava a Doutrina das obscuridades de que a via rodeada. O anúncio do reino de Deus tornou então a figurar com freqüência em meus discursos e repisei com energia as seguintes palavras:

“Muitos dentre vós verão o reino de Deus.”

Repito, irmãos meus:

“O reino de Deus se estabelecerá sobre a terra e muitos de vós verão o reino de Deus”.

Por que deram às minhas palavras um significado absurdo? — Para descobrir-me em erro ante a presente geração e ante a posteridade. Mas, encontrando-se já claramente definida agora minha doutrina, dai lugar aos homens de boa-vontade, vós outros homens intrigantes, homens de má-fé! — Dai lugar à verdade, ela trará novamente à Terra o reinado de Deus!
No décimo quinto capítulo seguiremos os dias dolorosos que levaram Jesus até o Calvário e assistiremos ao grande ato da expiação dos delitos de Jesus.
No capítulo décimo sexto nos ocuparemos da glória do Messias e diremos os motivos que o estimularam para revelar-se agora.
Irmãos meus, eu vos abençôo.

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Desejo a todos, muita paz, luz, amor.
Darci Dickel
CAPÍTULO XII



Causas da morte de Jesus. Oposição de sua família e amigos a seu decidido propósito de pôr termo a seu messianismo com o martírio. Seus irmãos pretendem fazê-lo passar por louco, mas ele consegue da mãe que os retenha na Betânia. Prossegue entretanto o Mestre, com afinco, a exposição de suas doutrinas, fustigando os sacerdotes, de qualquer religião que eles sejam, que se apóiam na força e chegam até ao homicídio para impor o que eles crêem ser a luz de Deus, quando ele ordena pelo contrário: “Não matarás”. Fustiga do mesmo modo os depositários da força pública, que não a cumprem para o bem de seus subordinados. Jesus, entretanto, pressentia a proximidade de seu fim e não perdia tempo, ativando pelo contrário sua propaganda.

Irmãos meus, as causas de minha morte podem definir-se assim:

“O delito de Jesus, no passado, foi o de facilitar as sedições populares, propalando por intermédio dos sacerdotes, suspeitas de conivência com os pagãos.
“O delito de Jesus, mais tarde, foi sua inclinação para o culto fundado pelo próprio Deus, e esta inclinação para o culto resultou de maior gravidade e de maior poder de sedução pela qualidade de filho de Deus que Jesus se atribuía.
“A lei mosaica tinha que alcançar a Jesus a quem tinham que infligir-lhe o suplício da lapidação. Porém, a opinião da casta sacerdotal precisava da adesão dessa mesma autoridade que com freqüência se desinteressava das questões que suscitavam entre os hebreus, e precisava-se também do concurso popular para o cumprimento da vingança do clero. Pelo que tomaram-se das últimas pregações de Jesus provas de culpabilidade como perturbador e abolicionista das leis civis, além das religiosas, para fazê-lo cair sob a jurisdição de Pôncio Pilatos, procurador romano. E perante o povo Jesus foi acusado de sedução e pacto com o espírito das trevas”.

Refiro aqui os motivos de minha condenação, motivos cujo valor discutirei depois, ao mesmo tempo que darei uma explicação de cada um dos delitos que me imputavam, por efeito de uma reprodução inexata de meus ensinamentos. Isto nos conduzirá a extensas explicações e terei que honrar a coragem de meu intérprete, que sofrerá por estes minuciosos detalhes, mais do que tenha sofrido por causa das anteriores pressões de meu espírito.
José e Andréia preparavam as humilhações que amarguei mais tarde, referindo lamentáveis episódios de minha infância, referentes aos últimos dias de meu pai e ao abandono de minha mãe. Eles agregaram à expressão de sua falsa piedade pelo que designavam como minha pobreza intelectual, a difamação de minha vida íntima e de minha qualidade de filho de Deus, por meio de vis espionagens, com juízos desleais e com uma designação burlesca em lugar da que eu havia tomado.
Não busquemos, irmãos meus, nos livros do antigo estilo uma explicação do título de filho do homem, que se me outorgou por escárnio, como acabo de dizer. Desembaracemo-nos das tenebrosas histórias para poder elevar nossa narração até à simplicidade do espírito, que tudo o esclarece, Não levantemos, por outra parte, uma desaprovação demasiado severa sobre certas personalidades desde que o fermento das idéias e o impulso do espírito resultam muito a miúdo de causas obscuras para a inteligência humana. Defendamos nossa alma e nosso espírito contra todos os entusiasmos e contra todo o preconcebido. Façamos distinção entre as diversas graduações, porém não maldigamos ninguém. Façamos da vida de Jesus um código de moralidade para todos os homens e esforcemo-nos em demonstrar que a vida humana deve ser respeitada, porque ele é uma emanação da alma divina. A vida humana encerrada nos limites impostos pelo Criador é um descanso em meio do caminho da imortalidade. A vida humana deformada pelo vício, encurtada pelos excessos, torturada pelos ódios, despedaçada pelo delito, representa uma espantosa falta de razão que revela a bestialidade da natureza, ainda não domada a tendência para a bestialidade primitiva, por causa de um regresso na ordem ascensional; as duas, bestialidade de natureza e bestialidade regressiva, constituem os verdadeiros flagelos do mundo. A primeira revela a força brutal da besta; a outra dirige as tendências da besta como que para fazê-las mais mortíferas. As duas desenvolvem, mediante o contato, os males asquerosos da alma, do espírito e do corpo; as duas marcham entre o sangue, alimentam-se de orgias, adormecem, vencidas pela saciedade, sobre ruínas.
Representando-vos a Jesus nos últimos momentos de sua vida de Messias, irmãos meus, não alimento a idéia de chamar vossa atenção tão-somente sobre Jesus, porém, sim, peço que todos os que leiam estas páginas reflexionem profundamente a respeito dos ensinamentos que elas oferecem à sua consideração. Não tenho mais que um propósito, e este é o de converter em melhores aos homens, propósito que será alcançado se eles meditarem sobre minhas palavras.
Defino as feridas de minha alma para caracterizar a aproximação que existe entre as almas humanas. Explico a culpável intenção dos que me desconheceram para voltar a trazer para uma suave resignação aos que se vêem caluniados. Declaro inimigos meus aos perspicazes, aos orgulhosos, aos depravados, reconhecendo em troca como novos discípulos aos homens de boa-vontade, aos humildes, aos deserdados de bens do mundo, aos famintos dos tesouros eternos. Sempre digo: O que não é por mim é contra mim. Felizes os que fazem provisões para a vida futura e que caem na pobreza voluntariamente durante a vida presente; o reino de Deus pertence-lhes. Buscai, e encontrareis; batei, e abrir-se-vos-á. A luz e a verdade são dons de Deus, espalhai-as amplamente entre todos os que as solicitam, com o ardor de uma alma livre e com um espírito desejoso das cousas celestes. Porquanto eu sou sempre o Messias, filho de Deus, que baixa da luz para amparar tudo o que já amparei, para defender tudo o que já defendi, para combater tudo o que por mim já foi combatido. Porquanto eu venho para destruir e para reconstruir, para demonstrar a meus discípulos qual é o reino a que eles devem aspirar. Tal reino não é deste mundo. Não há mais lugar para equívocos. O espírito liberto das sombras da natureza humana ilumina-se de luz divina, não lhe sendo já possível desviar-se por ignorância nem diminuir-se por temor das crueldades dos espíritos humanos. Este espírito, desde a elevação no meio da qual Deus o admitira, baixa a este mundo para trazer-vos a concórdia e a esperança, proclamar a imortalidade e o amor universal, em nome de Deus.
Volvamos, irmãos meus, ao ponto em que vos deixei no final de meu último capítulo.
A tranqüilidade de que eu gozava na Betânia parecia-se ao silêncio que precede às explosões, porque em Jerusalém, o ódio surdo dos sacerdotes começava a manifestar-se ostensivamente e o povo, de cujas simpatias eu gozava desde as bravatas que lançara nas proximidades do Templo, prestava ouvidos complacentes aos murmúrios que se faziam correr a respeito da inépcia e falsa virtude de minhas máximas, da vaidosa pretensão de meu espírito, que eu me haveria comprazido em evidenciar, conjuntamente com as demonstrações de minha pobreza e abnegação corporal. Minha mãe encontrava-se em Jerusalém devido a um chamado de Maria de Magdala. Ela era tomada nesses momentos duma inquebrantável vontade. Negou-se a voltar para Nazareth e me vi obrigado a contemplar até minha morte essa sua tristeza que constituía uma viva censura para meu sacrifício, essa dor que penetrava em minha alma, enfraquecendo-a. Maria de Magdala empregava, ante mim e minha mãe, toda essa energia que pode arrancar-se da paixão e de toda essa doçura e suavidade que nasce da prece. Retorcia-se nos espasmos do desespero ou ajoelhava-se piedosamente para pedir a Deus o poder de abalar minha resolução. Ela arrojava-se a meus pés, para manifestar me, com voz baixa e trêmula, toda a felicidade de um amor puro, porem invasor dos ímpetos da alma e das faculdades do espírito. Depois levantava-se, abraçava minha mãe e cobria-a de beijos frenéticos e suplicava-me que salvasse as duas da morte e do inferno, aonde seriam arrojadas por meu suplício e minha glória.
A repetição de tais demonstrações produzia no meu espírito o efeito de acidentes que interrompem o curso dos pensamentos. Sentia-me prostrado pela emoção quando algum feliz abalo vinha arrancar-me dos braços maternos que pretendiam reter-me com seu contato ardente, capaz de tornar-me louco ou covarde.
Maria de Magdala não era estimada somente por minha mãe: todos os meus discípulos e as mulheres vindas da Galiléia a estimavam. Marta, Simão, a jovem Maria notavam nela as sólidas condições da mulher desenganada e cansada dos prazeres mundanos, ao mesmo tempo que descobriam-lhe o semblante resplandecente pela graça e suaves condições da alma. Maria de Magdala era mais instruída que a maior parte dos que me rodeavam. Ela me era devedora do desenvolvimento de seu espírito e da certeza de seu conhecimento, porém, ainda antes de nos havermos encontrado, ela possuía já mais conhecimentos do que possuíam em geral as mulheres desse tempo. Maria teria sido perfeita sem a concentração de sua alma para uma pessoa, se bem que amava, apesar de tudo, a Deus com sinceridade. — Pobre Humanidade!
Propus a minha mãe que me acompanhasse a Betânia, para que não oferecesse a meus irmãos um apoio com sua presença, porquanto não dissipava neles o desatinado propósito de seguirem-me. Pus deste modo fim às nossas penosas reuniões.
Minha mãe dedicava-me mais carinho do que aos seus outros filhos. A elevada opinião que ela formara a respeito de meu destino, quando meu tio Tiago quis participar de meus trabalhos e de meus perigos, serviu para exaltar esse sentimento filho dos cuidados e inquietações que lhe havia proporcionado o mais débil e menos simpático dos membros de sua numerosa família.
Depois de nossa última entrevista em Nazareth, minha mãe alimentava um só desejo: salvar-me da morte. A descoberta que ela fez do profundo afeto de Maria proporcionou-lhe uma esperança à qual associou todos os outros recursos pessoais, que considerou úteis para seus fins. — Mãe infeliz! — Cem vezes mais infeliz que se houvesse compreendido desde o princípio a inutilidade de seus esforços. — Mártir humilde! — Mártir cujo martírio foi cem vezes mais cruel do que se houvesse aceitado, como uma ordem de Deus, a renúncia e a separação.
Irmãos meus, a expansão de uma alma de Deus não basta para dar-lhe a suprema compreensão da fé, e minha mãe, minha terna mãe, impregnada das teorias de unia religião imperfeita, não podia, apesar de sua confiança em mim, renunciar a tudo o que havia acreditado e praticado até então.
A liberdade da alma adquire-se por meio da força intelectual do espírito. Por força intelectual não entendo as aptidões mais ou menos pronunciadas para o estudo das ciências exatas, senão o impulso positivo da idéia para a solução de tal ou qual problema colocado no campo do infinito; entendo determinar a força intelectual do espírito, alimentando-a com o desejo fervoroso de conhecer as origens e imprimindo-lhe o cunho de uma vontade inalterável de avançar sempre e mais.
Repetir uma crença que se apóia tão-somente sobre velhos preconceitos e errôneas referências, para abraçar uma fé radiante de verdade, no meio de, um céu de luz fascinadora e infinita, é um fato que não pode produzir-se senão com a derrocada das aspirações materiais, com a absorção de princípio terrestre do espírito efetuado pelo princípio espiritual do mesmo espírito. E então que se rompem as sujeições da alma e que ela, possuída de sua liberdade, segue o espírito que se encontra na posse de suas forças.
Deus não se revela à alma que, embora amante, se torna escrava de um espírito que age unicamente por solicitações e não por própria ciência e consciência. Deus, pois, não se revelava senão em parte, à mulher piedosa, porém ignorante das fadigas que transportam para as delícias da fé, dessa fé sem contradições e sem terrores, que paira acima dos perigos e sorri no meio das torturas, que recebe luz de origem divina para cumprir todos os deveres, destruir todas as humilhações, avançar para todos os heroísmos.
Se minha mãe houvesse facilitado minha missão com sua fé, irmãos meus, ter-me-ia poupado uma grande amargura durante as lutas de meus últimos dias, entre as recordações da vida que fugia e as promessas da vida que se aproximava. Se minha mãe e Maria de Magdala se tivessem associado em toda a plenitude da fé, dentro de minhas crenças, meu espírito ter-se-ia mantido à altura de minha família espiritual, mas pelo contrário a tendência carnal desses dois amores diminuiu minhas forças e preparou minha fraqueza sobre o madeiro do sacrifício. Minha fé não se dobrou. Quando a fé se estabelece sobre a realidade demonstrada materialmente, não pode enfraquecer-se; mas a natureza humana humilhava tão profundamente o espírito agitado sob a pressão das fantasias contraditórias, que tinha que fazer um esforço para reconquistar essa liberdade tão querida e tão necessária para um apóstolo de Deus.
A dependência dos espíritos aumenta em relação com a inferioridade do mundo em que habitam, e acrescento que apesar das luzes espirituais e da força intelectual de um espírito, ele tem que sofrer mais ou menos deploravelmente pelas sombras lançadas sobre seu ideal e pelos assaltos dados às suas convicções, em um mundo em que todas as crenças religiosas se traduzem tão-somente com demonstrações referentes ao passado, ao porvir, ao presente e à honra do espírito.
A família dos homens é constituída de alianças sem homogeneidade e sem força coletiva para alcançar seu objetivo. Estas alianças se convertem em lamentáveis provas para os espíritos honrados com a elevação alcançada precedentemente na hierarquia moral e intelectual.
No exercício de sua liberdade o espírito encontra a calma necessária para a sua fé, o ardor para as concepções atrevidas e a decisão para dirigir sua obra. Porém, pode acaso esta liberdade ser completa e duradoura? Desgraçadamente, não!­ — Não, porque a triste dependência dos espíritos, uns dos outros, deve existir para o estabelecimento da justiça de Deus nos mundos em que a destruição das espécies inferiores por outras espécies superiores, assinala uma marcha progressiva até chegar ao homem; nos mundos em que a enorme desproporção dos espíritos entre si provém de causas laboriosamente definidas pela ciências que demonstramos, ciência que reconhece a imutabilidade das leis naturais. Agora, constituindo uma lei deste mundo a dependência material para os espíritos, ninguém pode iludi-la, e o espírito superior que se encontra aqui de passagem, conquista uma liberdade provisória ou se entristece na escravidão de sua vontade. As fraquezas da fé são inerentes a toda a crença sustentada com o auxílio de concessões da razão. As fraquezas na fé constituem motivos de constantes esforços para todos os que praticam uma religião sem compreendê-la. O fanatismo, que consiste em uma fé ardente privada da razão, deve ser considerado como uma enfermidade do espírito. A fé verdadeira jamais se separa da razão. Ela assinala uma personalidade convencida dos atributos divinos e esta personalidade vê-se obrigada a curvar-se perante os deveres que daí lhe resultam.
Qualquer que seja a causa diretriz do dever, ela é o resultado de lutas, de claudicações, de faltas anteriores do espírito, e os deveres futuros do mesmo espírito se constituirão do mesmo modo, sobre a base de seus meios atuais. Somente com muita lentidão a natureza humana pode desprender-se de suas tendências carnais, pois só a fé verdadeira proporciona o estímulo da coragem, a perseverança nas empresas, o desprezo pelos perigos, e o estudo dos deveres torna-se cada vez mais fácil, a matéria desgasta-se ao conquistar o espírito novas posições, o qual se eleva de etapa em etapa até o aniquilamento da matéria. Irmãos meus, a fé verdadeira honra a inteligência laboriosa que percorreu diversos caminhos, os quais lhe serviram de protetores. A fé verdadeira é o prêmio de todos os espíritos anciãos, cujo adiantamento intelectual não se vê deprimido pela decadência moral.
Fé resplandecente! Tu nos confias o segredo de nossos destinos. Tu nos dás a explicação de Deus, da sublimidade de suas leis, do poder de sua justiça e de seu amor; tu apontas o dever com a certeza de seres compreendida... O dever descansa no cumprimento da lei geral e nas obrigações morais, estabelecidas em nome dos princípios do direito individual. A lei geral, princípio de direito individual, emancipação, deduzida de uma criação inteligente; imortalidade, conseqüência da perfectibilidade; vós exibis o espírito humano ao desprezo das grandezas universais, porque o espírito humano pratica ou aprova o homicídio.
A família humana ultrapassa todos os erros da razão, quando afirma o direito de morte.
Deus, árbitro soberano dos espíritos, concede-lhes o corpo como instrumento, e o corpo conserva-se mais ou menos tempo, segundo a direção que lhe é impressa pelo espírito e o lugar habitado pelo espírito e pelo corpo.
Decrescimento antecipado de forças, ou debilidade do nascimento, intermitência de saúde e de enfermidade, desenvolvimento feliz ou extenuação prolongada, amplitude de manifestação ou opressão servil, decadência natural ou acidentes fortuitos, tudo isto demonstra o cansaço atual ou o cansaço precedente, tudo isto explica a disciplina universal por meio da prova e da reabilitação, e rechaça os nomes, os mais monstruosamente estúpidos como: Deus dos exércitos, Deus vingador, Deus ciumento, Deus terrível.
Vis assassinos, defensores embrutecidos de uma causa má, defensores sagazes de uma causa incompreensível, heresiarcas realmente convencidos ou valentes apóstolos de uma falsa religião, que julgas verdadeira, todos vós sois mais ou menos culpados diante de Deus e Deus vos julgará.
Delinqüente endurecido, hás de permanecer perturbado enquanto não apareça o arrependimento como indício de castigo e a expiação voluntária te seja levada em conta como atenuante. Mas, chegado a este ponto, poderás trabalhar sob as vistas de Deus e teu trabalho será recompensado. Pobre ignorante! Hás de vegetar entre inquietações e indecisões, até à aparição de uma luz distante que irá aproximando-se e tornando-se cada vez mais visível. Livres ou encarcerados, mestres de verdade, discípulos conscientes do erro, Deus vos terá em conta as circunstâncias desses erros, da causa de vossas fraquezas e reparareis vossas culpas e gozareis das honras devidas às reparações.
Assim é a justiça de Deus. Ela levanta os maiores culpados, ordena a emancipação, leva em conta os trabalhos, pesa os atos de valor, prepara novas glórias a seus Messias, depois de haver purificado seus espíritos, ofuscados pelas glórias precedentes.
Justiça dos homens, quando chegarás a ser uma cópia da justiça de Deus?
(Irmãos meus, emprego aqui a palavra justiça, para designar vossa força social; mas vossa força social, encontrando-se privada da idéia que representa a palavra justiça, reconheço que esta palavra é deficiente e continuarei empregando-a tão-só para ser compreendido.)
Justiça dos homens, a que deixa envilecer-se com todos os vícios uma forma humana, e que, em um momento dado, toma esta forma humana e a mata sob o pretexto de dar um exemplo de que precisa a sociedade, embebida das mais abomináveis máximas de imoralidade e desprovida do sentido intelectual até o ponto de, por uma parte, os mandamentos de Deus, continuamente repetidos, não serem jamais observados, e, por outra parte, negar-se a existência de Deus; justiça dos homens, a que decreta a morte com o sentimento do dever cumprido, que se apóia na mentira ao invocar a Deus para matar, e que resulta sempre como uma conseqüência dos instintos da natureza bestial, qualquer que seja a crença religiosa de que se alardeie!
Depositários da força social, os postos que vós ocupais neste mundo de provas são conseqüência natural das dependências humanas e preparam outras dependências humanas. A expressão de vosso poder, não havendo tido jamais causa motriz à emancipação dos espíritos e à justa distribuição dos auxílios materiais, constituirá sempre uma vergonha e uma condenação para vós. Alcançareis o sentimento de vossa inferioridade na lembrança das explosões de vaidade de vosso orgulho e sofrereis a terrível pena de talião, aplicada inexoravelmente em todos os casos de sangue derramado deliberadamente ou com a fria crueldade de uma inteligência humana. Eis, ó depositários da força social!, os castigos aplicados a todos os homens que tenham dirigido outros homens, sem antes iluminarem-se com o sentido moral e intelectual dos seres superiores.
Justiça de Deus, a misericórdia te acompanha, posto que deixas uma porta aberta para o arrependimento. Justiça dos homens, acompanha-te a mais espantosa demência, pois que, ou nada sabes da imortalidade, e então jogas a um precipício sem fundo todos os pensamentos cuja origem não podes explicar, essas pulsações que fazem palpitar outros corações, essas forças que parecem destinadas a produzir mais do que têm produzido até este momento,1 ou tens

1 Refere-se naturalmente à doutrina das reencarnações, única que pode explicar o encadeamento dos fatos, dando explicação da maior parte deles, que de outro modo resultariam como as páginas espalhadas de um livro, que, separadamente, nada significam. Assim, como se explicam os ódios ou simpatias inatas que se manifestam entre duas pessoas que se vêem pela primeira vez? Por que em uma mesma família, a despeito da lei hereditária e apesar de igualdade do meio e da educação, uns filhos saem perversos, outros virtuosíssimos; uns intelectualmente deficientes, outros chegam a ser gênios, etc.? Só a doutrina das reencarnações explica estas diferenças. Nota do Sr. Rebaudi.

noções a respeito da imortabilidade, e por que então te atreves a dificultar o caminho para a imortalidade? Espantosa demência! Já o disse, Justiça humana, Jesus como todos os condenados, que têm tempo para isso, podia tentar iluminar-te para salvar sua vida, somente que Jesus devia considerar-te suficientemente iluminado, e não se defendeu. Justiça humana, pergunta a teus mártires pelas diversas fases de sua agonia; todos te dirão que jamais tinham amado tanto como nesse momento, aos que estavam para deixar. Todos oferecerão minuciosos detalhes a respeito da calma fingida e dos alardeados atos de coragem, que depõem em favor de sua valentia no mesmo momento em que o coração geme despedaçado pela ansiedades da dúvida, da vergonha, dos remorsos e a naufragada esperança; quando a alma treme em frente da horrível visão que lhe proporcionam os aparatosos acessórios do suplício, inventados pela maldade no meio de suas orgias.
Grande Deus! Quanto sangue derramado sobre esta terra! Tremo ao pensar no passado, no porvir, no presente, em todos os países, em todas as religiões, em todas as origens, em todas as castas, em todas as sucessões, em todas as ambições e até em todos os caprichos manchados de sangue, e dirijo a todos os mártires minhas reminiscências de mártir, e elevo, com força, minha voz a Deus, suplicando: Piedade, misericórdia, Pai meu, para estes homens, que uma sociedade perversa impeliu para o delito, por meio do ateísmo, e aos quais castiga imediatamente com o delito. Digo a todos os justos: Como vós, sofri pela separação da carne, como vós fatiguei meu espírito na contemplação das misérias morais, como vós duvi-ei da utilidade de minha vida. E nesse momento solene em que a natureza luminosa do espírito se turba sob o peso das aflições da vida corporal, nesse momento precursor de minha liberdade, a elevada idéia de Deus pareceu fugir-me e meu espírito encheu-se de dor e de pesaroso recordar.
Ai de mim! As explosões de uma alegria grosseira, os insultos de um povo enganado, o abandono da maior parte dos que me amavam, o desespero das mulheres que assistiam minha morte, a opressão de uma intensa sufocação, todas as lívidas harmonias das últimas torturas da alma e do corpo, lançaram em meu espírito uma profunda tristeza que rompeu nesta queixosa prece.
“Pai meu, por que me abandonaste? ­— Mártires, maior que a vossa, foi minha fé; mas se desmaiei ante as atrocidades da ingratidão humana, se senti entorpecer-se minha vontade e titubear meu amor fraterno, foi porque as dependências dos espíritos se convertem em escolhos para os grandes caracteres, quando a força do alto não os ampara suficientemente contra os embates que os assaltam de baixo. E que tinha ainda dema-siadas ligações para que pudesse concentrar-me somente em Deus. Mártires, a grande voz de Deus vos diz por minha boca: O espírito eleva-se rapidamente no estudo das leis eternas, devido a uma morte imposta violentamente, quando esta morte não é o termo de uma vida manchada pelo homicídio.”

Irmãos meus, que um homem depravado levante sua mão sacrílega contra uma vida humana, não significa de maneira alguma que uma quantidade de homens tenha o direito de matar o assassino, porque o direito de morte só pertence a Deus e não pode ser um meio para uso das criaturas. Qualquer que seja a forma dada ao assassinato, o direito de assassinato não pode existir, porque Deus não pretendeu alterar tacitamente e segundo as circunstâncias, as palavras: Tu não matarás. Conclusão: A aplicação da pena de morte é um insulto ao Criador.
Outra conclusão derivada do mesmo mandamento, tu não matarás, é: A guerra e todos os atos que inundam a terra de sangue constituem negações do princípio divino e ao mesmo tempo asquerosas saturnais do espírito em delírio.
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Passemos agora, irmãos meus, a falar do aspecto da enfermidade de Simão.
Eu me havia ausentado da Betânia, levando comigo alguns de meus discípulos da Galiléia. Tínhamos que visitar as sinagogas mais próximas de Jerusalém.
Na Galiléia, a simplicidade cordial dos habitantes, minha eloqüência quase sempre improvisada, meus preceitos de moral amplamente desenvolvidos, com uma familiaridade que não excluía o respeito devido à palavra de Deus, minhas conversações facilmente concedidas por mim, o direito que outorgava a todos de observarem meus atos humanos, assim como de interrogarem minha ciência espiritual, nossas reuniões íntimas, às quais eu permitia com freqüência a participação de novos iniciados, com o fim de esclarecer o povo com testemunhos insuspeitos de devoção anterior à minha pessoa, e, finalmente, no teatro estreito de minha atuação de apóstolo, tudo tinha contribuído para manter a persuasão de minha autoridade divina. Mas em Jerusalém e em seus arredores o pobre Galileu havia de ser contraditado a cada instante. As sinagogas tinham que ser-lhe hostis, os fanáticos e os hipócritas lhe lançariam injúrias e o desprezo, cujo desenlace se apoiaria nestas palavras. É melhor que um homem pereça antes do que por ele se abale a fé de uma nação.
Fomos tão mal recebidos em todos os lugares desde o início de nossas visitas, que julgamos inútil intentar novas provas nas sinagogas, das quais constituíamos motivo de escândalo, como dizia o povo religioso, e nos retiramos, os dois filhos de Salomé, Mateus, Tomé, meu tio Tiago e eu, para a cidade de Efron. Permanecemos ali duas semanas e, enquanto gozávamos do repouso na intimidade, tivemos a satisfação de aumentar o número de nossos fiéis. De uma parte e da outra nós dirigimos as mais ternas despedidas, unidas às mais doces promessas de nos tornarmos a ver. Somente eu sabia que não voltaria. Minha hora se aproximava.
A este respeito, irmãos meus, é necessário fazer ressaltar a lucidez da alma, a penetração do espírito. Nunca deveis atribuir a causas sobrenaturais as faltas que são o fruto de vossa incúria, as faltas cometidas por vosso livre arbítrio, os acontecimentos derivados de uma ação da vontade, de um acordo ou confusão de idéias, de um capricho furioso ou de um estado de sonolência. Nosso destino, é certo, apóia-se no passado, mas é também incontestável que ele melhora ou se agrava devido às honras ou às vergonhas do espírito e que estas honras e estas vergonhas preparam o porvir. Minha morte voluntária cerraria minha obra, porém nada me obrigaria a uma morte voluntária. Eu era entretanto um Messias destinado a sofrer pelos homens e também a morrer por eles, posto que na época que eu vim à Terra como Messias, os homens conduziam à morte a seus Messias. Porém, repito, eu podia fugir, e se minha hora estava próxima era porque, querendo elevar-me pelo martírio, via que não era possível alongar a luta.
Judas atraiçoou-me, não porque estivesse fatalmente predestinado para semelhante ato, dependente do meu ato pessoal, senão porque, seu caráter ciumento o impelia à vingança. Se eu tivesse evitado o suplício, Judas teria encontrado outro meio para demonstrar seu ressentimento.
Suponhamos que os homens são menos cruéis agora que quando eu vim à Terra como Messias, do que deverão resultar algumas modificações nos sofrimentos preparatórios da morte e nos da própria morte. Por que os Messias estão destinados a grandes sofrimentos nos mundos inferiores? Porque os Messias trazem verdades e nos mundos dominados pelas tradições da ignorância não podem ser aceitas as verdades senão à força de trabalhos, de humilhações, de lutas heróicas e de longa desesperação, até à morte, quaisquer que sejam as peripécias desta morte.
Regressei a Betânia contente por encontrar ali os que eu havia deixado e evoquei as felizes disposições de todos para festejarem meu regresso.
Chegamos à tarde e não obstante a primorosa acolhida de meus discípulos, o abraço efusivo da minha mãe, a emoção das outras mulheres, apercebi-me de um mal-estar geral.
“Mas Simão, exclamei, onde está Simão?” — Marta, inundada de lágrimas, saiu de um aposento contíguo ao que ocupávamos. “Vem, disse ela, pelo menos ele morrerá tranqüilo, visto que te chama.”
Maria, minha pobre pequena Maria, atirou-se aos meus braços gritando: “Salva-o, Jesus, salva-o!”
Arredei Marta e Maria e entrei no quarto de Simão. Meu amigo era presa de uma febre ardente, porém tranqüilizei imediatamente a todos tornando-me responsável pelo seu restabelecimento. Coloquei-me a seu lado, permanecendo assim durante algumas horas2 e fiz-me


2 Este processo eu o tenho empregado e emprego, com êxito,a miúdo. Todos podem igualmente emprega-lo com a ajuda de um benévolo e intenso desejo de beneficiar o enfermo. Isto não quer dizer que sempre se obterá a cura nem que nossa ação possa ser comparável à do Mestre, porém, bem sempre produz. Nota do Sr. Rebaudi.

senhor desse delírio, que não anunciava nenhuma lesão mortal. Qualquer outro, conhecedor como eu das ciências médicas, teria obtido o mesmo resultado.
Seis dias depois Simão encontrava-se convalescente e a eficácia de minha cura foi reconhecida com o mesmo entusiasmo que sempre dava a meus atos mais singelos, uma transcendência funesta para minha segurança presente e para minha dignidade de espírito perante a posteridade.
Para celebrar o restabelecimento de Simão, Marta teve a idéia de dar um banquete no qual deviam honrar-me, a mim especialmente, e para dissimular a meus olhos o que havia de ofensivo em tal ato para meus princípios, Marta recordou-me um costume ao qual tínhamos deixado de submeter-nos à minha chegada, devido à tristeza que reinava na casa.
Este costume designava o visitante como a um amigo espera-do desde muito tempo antes; estavam prescritas demonstrações a que não podia subtrair-se o hóspede, sob pena de desmerecer no conceito do amigo que lhe conferia a hospitalidade.
Éramos muitos neste banquete. Tomaram parte nele vários parentes, alguns notáveis da povoação, todos os meus discípulos da Galiléia, Marcos, José de Arimatéia, minha mãe, Salomé, Verônica, muitas amigas e companheiras de Marta, formando enfim um total de trinta e nove pessoas. Marta, que devia completar o número quarenta, preferiu, segundo seus desejos ao terminar os preparativos, a honra de servir-me, conjuntamente com Maria de Magdala, Joana, Débora e Fatmé.
Maria, irmã de Simão, permanecia quase constantemente detrás dele, o qual estava sentado à minha frente, no centro da mesa. Sua intenção bem decidida era a de contemplar meu semblante, de surpreender meus mais insignificantes gestos, de saborear minhas palavras, estudando todas as graduações de minhas impressões, de abandonar-se finalmente e esse instinto indagador da alma, que despreza as formas exteriores para insinuar o pensamento no pensamento e concentrar o desejo no ideal.
A conversação devia naturalmente girar em torno do motivo da reunião. Meus conhecimentos espirituais, minha dependência divina, exaltaram as imaginações e me vi obrigado a explicar a origem de minha força moral, da maneira de lutar contra a efervescência popular que pretendia descobrir o dom de milagre onde apenas existia a harmonia das qualidades sensitivas da alma com fácil penetração do espíritos.
Para melhor convencer a meus ouvintes, passei em revista minha vida de apóstolo e dei a cada um de meus atos, tidos por sobrenaturais, o justo valor que lhes correspondia dentro de minhas afirmações. Demonstrei-me como o Messias preparado para sua missão com sólidos estudos sobre o poder dos elementos, sobre a propriedade das plantas, a fraqueza do espírito humano e o império da vontade. Fiz depender todas as minhas alianças espirituais de uma mesma fonte: a longa vida do espírito, e todas minhas manifestações ostensivas do encadeamento prático e sábio das causas e dos efeitos.
Deduzi da ciência humana os caracteres ostensivos de meus meios curativos e da ciência divina, a felicidade de minha alma, a qual arrojava seus reflexos sobre as almas oprimidas e os espíritos enfermos. Estabeleci finalmente a grandeza de minha fé, a imensidade de minhas esperanças com tão vivas imagens e com tais ímpetos de entusiasmo, que Simão, apresentando-me uma taça cheia, suplicou-me que molhasse nela meus lábios, a fim de misturar o sopro divino com o sopro mortal, e de confundir o salvador com ele, o humilde ressuscitado, honra que ele pedia, graça que receberia com ardente fé, com o amor inextinguível que lhe inspirava o filho de Deus.
Nesse momento e depois de haver contentado a Simão, ouvi como um soluço a meu lado. Voltei-me e vi Maria. Ela se havia separado de seu irmão para acercar-se de quem havia sido chamado salvador; sua gratidão, seu culto se traduziam em acentos entrecortados, em espasmos da voz, e seu espírito sobre excitado por minhas demonstrações, vinha implorar o apoio de minha força contra a violência de suas ilusões. Tomei a menina em meus braços, sua cabeça inclinou-se e seus cabelos soltos formaram uma moldura de ébano a seu rosto inanimado. Todos os olhares ficaram fixos e os peitos ansiosos, à espera do desenlace de tal crise, cujo termo se anunciou com algumas lagrimas e um fraco rubor da pele. Maria despertou como de um sono, sem compreender a emoção de que havia sido causa, e também com um sentimento de felicidade. Expliquei a Simão a extremada sensibilidade da irmã e indiquei-lhes, com insistência, que não deviam jamais contrariá-la bruscamente em suas excentricidades, a essa alma tão exuberantemente dotada, a esse espírito tão despoticamente governado pela alma.
Apenas tornada a si, Maria desapareceu. Encontrava-me, por conseguinte, em boas condições para falar de um acidente que me sugeriu numerosas observações sobre as naturezas corporais dominadas por visões demasiado fortes da alma e por ambições demasiado fortes do espírito. Em seguida deixei-me transportar, como sempre, por minha volúvel fantasia, falando com frases sentenciosas e proféticas, em evocações de meu espírito para o Ser Supremo.
Havíamos chegado ao final do banquete e ninguém já comia, nem bebia, senão que todos tinham ficado suspensos de minhas palavras.
Elevei-me vagarosamente para o absoluto de meus ideais referentes às alianças dos mundos e dos espíritos. Pouco a pouco senti-me como que separado dos que fraternizavam comigo nesse banquete, vendo-me rodeado dos homens do porvir, e apresentouse-me através do suceder dos séculos minha emancipação desta terra. Depois, atraído pelo sentimento da atualidade, falei de minha morte, rodeando-a de todas as seduções da glória imortal. Anunciei-lhes que quase todos me abandonariam, prometi-lhes que os honraria em seus esforços ou os consolaria em seus arrependimentos que os dirigiria para a luz com o auxílio dos dons do espírito para com o espírito e que os elevaria com a persistência de meu amor.
João, como sempre, encontrava-se à minha esquerda e esforçava-se nesse momento por conhecer aos que eu havia querido aludir ao falar de abandono. A este desejo, manifestado em uma forma de pergunta, respondi que a presciência a respeito dos sucessos se torna fácil por meio do esforço do espírito no estudo dos homens e das cousas.

“Muitos me abandonarão, acrescentei, porque muitos são fracos e medrosos.
“Alguns me renegarão, outros me atraiçoarão, talvez para iludir a responsabilidade ou para satisfazer seu fastio.
“Os homens não acreditam suficientemente na minha força de Messias e a proximidade do perigo os separará de junto de mim.
“Porém, depois de minha morte, os homens de quem falo compreenderão a covardia de sua conduta e meu espírito se lhes aproximará novamente para continuar a obra que fundei.”

Irmãos meus, eu não assinalei de um modo mais preciso aos que me haviam de abandonar, renegar-me, atraiçoar-me. A razão vo-la dou com minha resposta a esse discípulo tão audaz em seu fanatismo, como exagerado em seus testemunhos de amor. A luz que brilha da ciência espiritual é a guardiã das forças humanas para perseverar nas atividades da alma e no heroísmo do espírito, mas não poderia determinar uma violação da lei que quer que a matéria seja um obstáculo para a visão completa da alma e do espírito. Eu gozava deliciosamente com as honras que me prodigalizavam e, quando Marta derramou água perfumada sobre minhas mãos e que sua jovem irmã me borrifou a cabeça e as roupas, demonstrei-me feliz ao contemplar a felicidade que elas experimentavam. A tarde terminou no meio de uma alegria expansiva, que nada veio turbar.
Irmãos meus, no capítulo treze deste livro passaremos em revista as causas do ódio dos sacerdotes e de minha condenação. Depois continuaremos a exposição dos fatos que precederam a minha morte.

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Desejo a todos, muita paz, luz, amor.
Darci Dickel

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